Ei, Estranho
Ei, Estranho, foste o começo da minha vida. Foste tu quem mais me ensionou a amadurecer, a chorar, a viver. Sinto que tiveste o maior impacto na minha vida e que foste tu quem mais me estimulou a melhorar, apesar de não o teres feito propositalmente.
Sempre, desde 2022, foste tu o motivo da minha mente entrar em colapso, sentir prazer, saltitar de energia, chorar até desidratar. Foste a razão de tudo na minha vida, Estranho.
E o pior disso é que nem sequer te conheço mais.
O pior de tudo é que eu já não sei se ainda detestas barulhos altos. Não sei se “Prom’s Queen” ainda é a tua música favorita, ou se ainda ouves Chase Atlantic tanto quanto antes. Não sei se tens alguém novo para quem sorris daquela forma tímida e extremamente adorável; não sei também se esse alguém também tem um peluche com o teu cheiro. Não sei se sequer ainda pensas em mim ou lembraste da minha existência quando vês algo que sabes que gosto.
Sabes do que eu gosto, Estranho?
Mas sei que ainda lembro-me de ti quando vejo qualquer coisa do Homem-Aranha. Sei que vejo a tua cara sempre que fecho os olhos, mesmo que por menos de um segundo. Sei que o meu coração vai à loucura quando te vê nos corredores da escola. Sei que consigo sentir o teu cheiro de repente, mesmo contigo a 1 ano-luz de mim — cheiro esse que era o meu maior tranquilizante. Sei que ainda penso em ti diariamente e, da forma mais torturante possível, a minha mente insiste me relembrar de tudo que passamos juntos.
Infelizmente, ainda fazes parte da minha existência, Estranho.
No entanto, eu não faço parte de nem um sequer segundo da tua vida.
Ainda me pergunto se és o mesmo Estranho que conheci antes de te desconhecer, se as tuas novas amizades são realmente amizades, se a tua vida está agora tão feliz quanto era comigo. Este final pareceu tão egoísta, mas talvez eu realmente seja um pouco, tendo em conta o jeito que eu mesma te deixei sem qualquer explicação.
Explicação essa que ainda me pergunto se tu aceitarias caso soubesses dela. E, falando dela, sinto que deveria escrevê-la, pelo menos, aqui, caso decidas ler este texto parvo onde pretendo apenas dizer tudo que sou demasiado covarde para te dizer.
Vou começar por deixar esclarecido o facto de eu ser uma criança completamente inconsequente e imatura naquela época.
Bem… Já se faziam, mais ou menos, 4 ou 5 meses de compromisso — dos meses mais felizes da minha vida, prometo-te — e já tinhamos nos acostumado com a presença um do outro, percebido que éramos simplesmente perfeitos, entendido as nossas personalidades perfeitamente desenhadas uma para a outra. Todo o tempo que passávamos juntos era uma terapia e distração de todo o resto. No entanto, após esses meses, um sentimento de culpa e insegurança começou a dominar a minha mente. Sentia que todo o amor, todo o carinho e abraço teu, eram todas coisas que eu defenitivamente não merecia. E por que eu julgava não ser digna daquilo tudo? Pela ausência de amor recebido toda a vida por paixões antigas, eu não sabia que aquilo era o que qualquer pessoa merecia em um relacionamento. Eu não sabia que aquilo era o amor certo. Não sabia receber aquele tipo de afeto e muito menos aceitá-lo. E, como não aprendera a lidar com ele, também não pensava que sabia sentí-lo.
Em síntese, na minha cabecinha complexa, todo o teu amor era claramente superior ao meu. E queres saber de uma coisa? Não era. Não era, e eu somente percebi isso depois de te ver com ela. Aquela loira que todos adoram.
Foi em 2024 que eu pude refletir constantemente sobre o que tivemos. Pude também perceber que o mais próximo de uma luta a que eu cheguei foi por tua causa, assim como qualquer coisa minimamente radical. Foste tu quem me fez sentir o mais intensamente, Estranho. E foi também nesse ano que tu e a Loira se comprometeram, deixando-me aparentemente de lado. A Loira, que era tua namorada; a Loira, que era a minha melhor amiga.
Ver-te abraçado a ela, a sorrir tímido para ela, a beijá-la exclusivamente a ela, a dedicar-te somente a ela… Fiquei irada. Fiquei perdida, sozinha. Sofri em silêncio pelos 6 longos meses em que vocês se amaram, até que, para a minha estúpida e egoísta alegria, vocês terminaram tudo. A Loira, desgastada do vosso relacionamento; tu, desvastado e tão perdido quanto eu.
Pronto. Aquilo foi a brecha para eu tentar me reaproximar de ti e resolver tudo que não resolvera mais cedo. A Loira, encantada pelo Outro; tu, provavelmente a invejares e a odiares o Outro; eu, com os meus olhos fixos a ti, como sempre foi e sempre tem sido.
Daqui a 10 dias o dia especial completa 1 ano. O dia especial em que a tua provavelmente carência deixada pelo teu ex-relacionamento te guiou até o meu quarto, em seguida a minha cama, e te fez beijar os meus lábios em meio ao escuro durante três dias. Acho que estavas apenas a beijar os lábios de alguém, na verdade, e não os meus.
Como é óbvio, a criança emocionada e esperançosa que era eu não parou de pensar nisso. Mas, como também é óbvio, voltamos a nos afastar, tal como sempre fizemos.
Claro, a nossa relação permaneceu a mesma coisa estranha de antes, mas um pequeno pedaço dela foi roubado por aquelas vezes em que nos beijamos — um grande pedaço, na verdade. Perdemos — fui eu quem perdeu qualquer coisa que fosse nossa — o comprometimento com a nossa “amizade”.
Na verdade, percebo agora que aqueles três dias provavelmente foram o ponto final de um longo capítulo da minha vida, Estranho. Foram o ponto final do primeiro capítulo, o capítulo que tu mesmo começaste.
Mas eu não quero continuar a ler este livro sem o teu nome nos próximos parágrafos.
Eu recuso-me a aceitar que está tudo terminado, Estranho, e é isso que me puxa para trás, que me faz permanecer no passado enquanto tu pensas em um futuro só teu.
Eu recuso-me a aceitar que está tudo terminado, e é isso que não me deixa te superar, Estranho.
